O pastor e o rebanho da política fluminense.

O pastor e o rebanho da política fluminense.

Na última quinta-feira, dia 17 de setembro de 2020, Crivella novamente safou-se de um impeachment, em uma votação de 24 votos contrários e 20 favoráveis à abertura do processo. Esse foi o quinto pedido arquivado pela Câmara dos Vereadores durante o mandato do prefeito do Rio de Janeiro, eleito em 2017 pelo incoerente discurso de anticorrupção. O pedido de impedimento deu-se, dessa vez, em decorrência de seu suposto envolvimento no caso de corrupção conhecido como “QG da propina”, em que haveria facilitação indevida de contratações entre a prefeitura do Rio da Janeiro e a empresa de turismo Riotur. Mesmo diante da gravidade das acusações e do conjunto probatório, apoiadores colocam o prefeito como uma vítima de uma tentativa de golpe. A narrativa é de que a oposição, vencida nas urnas, não quer respeitar a vontade popular, ou seja, não quer respeitar o jogo democrático. Exemplo disso foi o vereador Inaldo Silva, que, na votação, chegou a enaltecer o pastor Crivella, comparando-o a uma fênix: após “ataques” da oposição, retornaria mais “forte”. Percebe-se que, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, o discurso de vitimização de políticos que se acham perseguidos vem aumentando cada vez mais. Utilizam-se de frases de efeito que, embora possam, de início, ter um caráter persuasivo, acabam se desvaindo pelo uso banalizado. Deve-se pontuar que, antes de tudo, o impeachment é um procedimento eminentemente político, previsto na Constituição Federal desde 1988. Trata-se de um mecanismo de controle no qual se leva em consideração a conveniência e a oportunidade da medida, bem como suas consequências político-sociais. Em outras palavras, há uma alta discricionariedade no julgamento, não podendo ser comparado a um processo judicial. Isso não significa que tenhamos adotado um sistema de recall, isto é, de que seja possível declarar a perda do mandato político por razões de incompetência. Não há dúvidas de que não foi esse o modelo adotado por nossa Constituição. Entretanto, não se pode exigir de um legislador, que somente precisa saber assinar o próprio nome, conhecimento técnico e jurídico para analisar questões envolvendo crime de responsabilidade, improbidade administrativa e (ir)responsabilidade fiscal. São temas complexos até mesmo para quem tem formação na área. Sendo assim, o que denominam de “golpe” é, em verdade, a faceta política do processo de impeachment. Caso contrário, poderia ser dito até mesmo que a permanência de Crivella como prefeito do Rio de Janeiro seria um golpe, pelo fato de o pastor ter um rebanho de fiéis na Câmara dos Vereadores.

Autor: Régis Francisco Maluf

4 Replies to “O pastor e o rebanho da política fluminense.”

  1. Justamente , tem que se entender o impeachment inicialmente como um processo politico

  2. Excelente texto. Creio que seja o sentimento de muitos cidadãos fluminenses

  3. Abordagem muito sensata, nunca tinha pensado sobre esse viés, mas faz todo sentido, parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

WhatsApp chat